Buscar
  • Professor Lucio Reis

Líder que ouve ou escuta?


Creio que uma das maiores qualidades de um líder é a de saber ouvir. Num mundo tão agitado, com tantas demandas urgentes e pessoas com os “nervos à flor da pele”, o líder tem por obrigação exercer esse, que na atualidade é o maior desafio; saber ouvir.


Todos queremos ser ouvidos e ter as nossas opiniões sempre acatadas e respeitadas. Longe de nós sermos contrariados.


O tempo e a correria talvez sejam os nossos principais algozes. Andamos tão estressados que sequer queremos ouvir. Não temos paciência, não temos tempo a perder, principalmente com “questõezinhas”.


Já reparou como isso tem se estendido às nossas casas? Chegamos do trabalho tão acelerados que a única coisa que queremos é nos jogar no sofá, pegar o controle da TV e ficar passando de canal em canal, sem parar em programação alguma ou apenas visitar as nossas redes sociais.


E como ficam aqueles que estavam à nossa espera? Nossos filhos pequenos com vontade de brincar, outros de contar como foi seu dia na escola. Cônjuges precisando passar as demandas do lar e por aí vai, cada um com a necessidade de ser ouvido.


Em nosso trabalho não é diferente, aliás, é muito pior, pois o ambiente é frio e muitas vezes não há sentimento. O mundo corporativo não deixa espaços para erros ou “inferioridade”.

Por vezes, tal ambiente chega a ser agressivo, por tamanha sobrecarga de responsabilidades e tomadas de decisões que os líderes vão ficando insensíveis e muito cansados.


Não é à toa que esse comportamento é reproduzido em casa, infelizmente.

O líder que não ouve, e é insensível, começa ter sua liderança comprometida, afinal, ele age por decisão própria a todo instante, cria ranço na equipe e põe tudo a perder com o passar do tempo, sem perceber que isso esteja acontecendo.


Em minhas palestras sobre liderança, sempre pergunto ao público: “Seus liderados te seguem por admiração ou por medo de perder o emprego? – Sua família te segue por amor ou por que não tem opção?”


Observe como isso é poderoso. Peter Drucker diz que “Líder é aquele que tem seguidores” e para ser seguido, precisa ouvir o tempo todo, muito mais que falar.

Dale Carnegie nos ensina que “Lideres fazem perguntas e então ouvem com os olhos, ouvidos e seus corações para construir linhas de entendimento”.


O líder precisa ouvir para entender as reais necessidades e demandas da sua equipe e família, para depois dar uma direção que vai corrigir rotas. Suas decisões facilitam a vida dos demais e não criam e nem podem criar problemas de relacionamentos. Do que adianta resolver algo pontual e armar uma bomba relógio?


O líder ouve, mas também fala e pasme você; ele fala muito mais com suas atitudes do que com as palavras.

Aquela máxima que diz: Faça o que falo, mas não faça o que faço não pode existir na vida do líder.


Considere que em todo o seu contexto de trabalho, família, igreja, escola etc., você está transmitindo informação a todo tempo. Tudo no seu dia a dia, produz informações e mensagens que são captadas a todo instante, por todos que estão à sua volta.


Agora veja; a Universidade UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) fez uma pesquisa em 1996 e descobriu o seguinte: - da informação que transmitimos, apenas 7% é conteúdo, 38% expressão vocal e 55% expressão corporal.


Isso é magnífico! Mais da metade das informações que transmitimos são passadas pela expressão corporal. Às vezes falamos alguma coisa com a boca, mas dizemos outra totalmente diferente com o nosso corpo.


Quero dizer com isso que, se quisermos liderar, precisamos ouvir e depois verbalizar todo o sentimento de forma harmônica e em perfeita sintonia com cabeça, voz e corpo. Nossas ações precisam manifestar coerência com aquilo que pensamos.


O mundo clama por líderes. Não esses “enlatados” produzidos pelas seções de coaching aos finais de semana, mas por aqueles que realmente se comprometem pelo seu próximo, sua família ou sua equipe.


Os Elefantes da África

Deixa te contar algo que aconteceu a partir de 1992, no Parque Nacional de Pilanesberg, na África do Sul.


Elefantes adolescentes estavam estuprando e matando rinocerontes fêmeas, além de atacar sem motivo aparente, pessoas nas vilas. Em 2003, também, o vilarejo de Kyambura, em Uganda foi alvo desse tipo de ataque.


Em 2005, nos países africanos da Zâmbia, Tanzânia e Serra Leoa, mais de 300 moradores de vilarejos tiveram que deixar suas casas, amedrontados pela violência dos elefantes jovens.


Quem encontrou a resposta para tamanho ataque de fúria e descontrole dos animais, foi a professora de psicologia animal da Universidade do Oregon, nos EUA, Gay Bradshaw.


Após dias de intensos trabalhos e pesquisas a doutora percebeu algo em comum nos ataques e estupros. Embora estivessem ocorrendo em países diferentes, - todos animais eram machos e adolescentes, filhos de mães solteiras e sem líderes tradicionais. Eles cresceram sem noção de disciplina, tornando-se rebeldes.


Mas, a razão por trás desse crescimento sem a presença de líderes se deve ao fato de caçadores terem abatido, ou praticamente exterminado os mais velhos por causa do marfim. Quanto maior o marfim, mais valioso se tornava, desse modo, os animais mais velhos é que tinham as presas maiores e, portanto, sendo o verdadeiro objeto de desejo desses homens.


A solução encontrada para esse problema foi importar elefantes velhos e maduros de outras regiões para ensinar boas maneiras aos mais jovens.


Que coisa maravilhosa, a natureza nos ensinando questões da vida. Num primeiro momento, já aprendemos noções básicas da importância da família. Quantas casas destruídas por conta da ausência de liderança, seja ela paterna ou materna.

Filhos crescendo sem noção alguma de autoridade acabam levando isso para a vida profissional ou até para outros relacionamentos.


Pais ausentes. Até presentes fisicamente, mas totalmente displicentes com a sua família. Líderes responsáveis por seus trabalhos, mas totalmente irresponsáveis com os seus liderados.


Mais uma vez a pergunta para você pensar: As pessoas te seguem porque sabem que encontrarão uma direção segura, firme e recheada de carinho, ou porque não têm opção melhor?

É duro ouvir isso, mas precisamos ter um choque de realidade vez ou outra.

Os elefantes “importados” não precisaram ficar falando aos mais jovens: —Façam assim, não andem aí, não estuprem, não matem etc. Eles simplesmente estavam lá, agindo conforme aprenderam no passado e os mais novos observando o comportamento dos mais velhos, aprendendo pela observação.


Lembra que a pesquisa realizada na UCLA dá conta de que, de toda mensagem que precisa ser transmitida, 55% passa pelo corpo? Viu como isso faz sentido? Você pode estar falando uma coisa e seu corpo outra completamente diferente.


A baleia mais solitária do Mundo

Não é brincadeira o que você vai conhecer agora. Há uma baleia rara, que vaga pelo Pacífico Norte. Ela não tem família, grupo e jamais teve um parceiro. Ela simplesmente segue vagando pelo oceano desde 1989 clamando por amigos, mas não consegue chamar a atenção de nenhuma outra.


Sozinha em meio à multidão. Certamente essa expressão é bastante conhecida nossa, mas é uma realidade para esse mamífero que leva o nome de Baleia de 52 Hz.

Seu nome não é por acaso, afinal todas as demais emitem sons numa frequência de 12 e 25Hz, mas nossa amiguinha está acima da casa dos 50 Hz.


Numa primeira olhada, dá a sensação que ela está gritando, mas é o contrário. Ela não pode ser ouvida. Seu potencial vocal não pode ser escutado porque seu canto é inaudível. Sua música é mais grave que a nota grave de uma tuba, tornando impossível que sua futura paquera a ouça. Em todo ciclo migratório ela vai sozinha e volta sozinha no oceano.


Quero dizer com tudo isso que, o bom líder ouve, e como já mencionei, ele provoca uma reação – positiva – no interlocutor e depois ouve com os ouvidos, olhos e principalmente com o coração, mas para que isso realmente aconteça, ele precisa “ser”, muito mais que “fala” em todas as suas atitudes.


Toda liderança precisa encontrar os Hertz certos que atingem em cheio o coração dos seus pares, afinal, cada pessoa tem sua própria frequência de entendimento. Isso precisa ser compreendido para que se tenha êxito em todo o trabalho. Você pode estar falando “A” e sua equipe entendendo “B” e por conta disso seu coração fica angustiado o tempo todo, por ninguém entrar em sintonia contigo. Viu só? Em muitos casos é apenas uma questão de ajuste.


De repente você me fala: —Lúcio, eu não sou líder e nem me interesso nesse assunto, e eu vou precisar te dizer que em algum momento da sua vida, você vai precisar liderar, captar atenção e desenvolver habilidades de alguém, seja em casa, na escola e muito mais no trabalho. Pense nisso com carinho. As pessoas estão ficando muito iguais profissionalmente e já quase não há muita diferença entre elas, evidentemente que estou falando nos mesmos segmentos.


Nesse universo profissional o que tem feito a diferença é o relacionamento interpessoal com ênfase na habilidade de saber ouvir.


Mas será que as pessoas estão te entendendo? Como estão os seus Hertz? Fala muito alto ou não sabe se expressar? Será que você é uma baleia de 52Hz?

Está na hora de reavaliar se a sua postura está condizente com o que você diz; se o seu corpo está de acordo com as suas atitudes. É tempo de se perguntar se está no grupo dos elefantes que quebram tudo sem perceber, ou se faz parte do seleto grupo que é acionado para transformar atitudes.


Falar menos, ouvir mais é uma chave poderosa para conquistar a nossa audiência. Filhos, mais do que ninguém precisam de atenção, não importando a idade.

Talvez isso possa parecer difícil demais, afinal são estruturas que, em muitos casos vêm da nossa infância, e posso até concordar também que é muito complicado dar o que nunca recebeu, dar o que não tem, mas é possível conquistar atitudes e habilidades que até então não se tinha.


Procure ajuda; tenha pessoas por perto que queiram o seu bem. Adote um líder, ou melhor, tenha um mentor para te ajudar a liderar. Ninguém deve andar sozinho.

Faça um trato com você mesmo. Preste mais atenção em suas atitudes. Saia do piloto automático e torne-se senhor da sua história. Ouça conselhos de pessoas que sejam melhores que você.


Garanta gestos e atitudes simples, e tenha a certeza de que você vai conquistar a admiração dos seus liderados, por mais fortes que eles sejam.


Paz e prosperidade. Nos encontramos por aí.

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo