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  • Professor Lucio Reis

Como crianças


Já reparou como as crianças são interessantes?


Quando passam por problemas, choram, brigam, esperneiam, batem, enfim, fazem um verdadeiro escarcéu e depois vivem como se nada tivesse acontecido.

Elas passam por grandes problemas de relacionamentos com seus amiguinhos, primos e irmãos. Pegam-se, puxam os cabelos uns dos outros, chamam os pais para resolverem os conflitos, são colocados de castigo e logo em seguida continuam tranquilamente. Ficam de mal e depois de minutos, já está tudo certo novamente.


Quando os pais dão bronca, ficam profundamente sentidos, mas depois de longos dois minutos, voltam brincando, beijando e dizendo: “Papai, mamãe, te amo para sempre.”

E quando, brincando, caem, ralam-se, quebram-se e voltam para dentro de casa chorando em busca de proteção? Basta apenas a mãe passar uma água no raladinho, ou dar um beijinho e dizer – já passou, já passou e milagrosamente voltam a brincar como se nada tivesse acontecido.


É fato que os anos vão passando e a inocência vai ficando no passado. As responsabilidades vão chegando e com elas a dureza da vida.

É inevitável que essa responsabilidade traga consigo dores e dissabores, mas o crescimento sempre virá a reboque.


Nesse aspecto, muitas perguntas permeiam minha mente: Por que não podemos ser como crianças em algumas áreas da nossa emoção? Por que não nos permitimos chorar? Por que temos que engolir a seco? Por que não conseguimos desabafar com outras pessoas?


Por que crescemos e ficamos bobos, turrões e chatos?


Será que, nessa situação, não há uma inversão de valores, e estamos por assumir a condição de adultos com síndrome de crianças birrentas e de crianças com atitudes de adultos?


Nossa, quantas perguntas não é mesmo?

A sociedade moderna tem vivido um tempo de isolamento sem precedentes. Um tempo em que cada um vive para si, preocupado apenas com seu “umbigo”.

Adultos totalmente infantilizados em suas emoções e incapazes de resolverem conflitos menores.


Cresci ouvindo que o próprio corpo cria resistência a muitas doenças, quando nós mesmos entrávamos em contato com algum agente nocivo. Ficávamos doentes constantemente nas escolinhas pelo fato de estarmos sempre ao lado de uma criança doentinha.


Com o passar do tempo, já estávamos imunes a muitas doenças como gripes por exemplo. É uma reação natural quando queremos proteger nossas emoções ou as de quem amamos, não nos envolvendo ou mantendo alguma distância dos outros. Mas guardadas as devidas proporções, como vamos criar “anticorpos nos relacionamentos” se a todo instante estamos colocando uma bolha de proteção?


Outra questão muito interessante é que tivemos uma infância cercada de amigos, vizinhos vindo em nossas casas ao final do dia, brincadeiras até tarde na rua, conflitos, risadas, brigas, jogos e muitas situações hilariantes que só quem brincou muitos anos na rua saberá o valor disso tudo.


Os novos adultos têm crescido tão protegidos do mundo, da violência urbana nos últimos anos que toda essa proteção tem – alinhada a outros fatores – contribuído para que tenhamos adultos infantilizados em suas emoções.


Adultos birrentos que sofrem e fazem outros sofrerem.


Pessoas que não conseguem expor seu sofrimento e são muitas vezes duras e frias, incapazes de se relacionarem de forma sadia e duradoura. Machucam outros uma vez que são machucados, causando um verdadeiro ciclo da ferida.


Isso é um paradoxo. São duros, frios e ao mesmo tempo, sensíveis e imaturos em suas emoções. Nossos jovens são preparados intelectualmente nas mais variadas áreas do conhecimento acadêmico, mas, quando se trata de relacionamento e tomadas de decisão, estão cada vez mais perdidos.


Os números publicados pela Organização Mundial da Saúde são alarmantes quando se fala do quadro de depressão mundial. É de fato a doença do século.

Adultos que não choram porque seria sinal de fraqueza. Homens rudes, frios e violentos com suas mulheres porque não tiveram uma figura que lhes servisse de inspiração, que lhes mostrasse o caminho a seguir.


Pessoas cada vez mais sozinhas e isoladas em meio à multidão.

Pais tentando, de alguma forma, suprir a sua ausência com equipamentos eletrônicos e presentes dos mais variados tipos, dando-os aos seus filhos, que passam horas sozinhos sendo educados pela televisão ou internet.


Agora me fale sinceramente o que esperar desses novos adultos que estão chegando ao nosso mundo?

É por isso que iniciei esse nosso bate-papo sobre ser como criança.


Ela se machuca, mas a sua alma não vive machucada.

Briga com os amiguinhos, mas não leva isso para sua casa. Até fala com a mamãe que brigou, mas, na primeira chance de encontrar seu companheiro age como se nada tivesse acontecido e, assim, brinca novamente.


A criança não leva em conta suas frustrações pois são momentâneas.

Você não acha que, em muitas das situações que vivemos, não seria possível agir da mesma maneira que as crianças?


Até quando vai ficar pelos cantos com o coração ferido? Dê você um passo atrás. Tenha atitude de adulto com coração de criança que não guarda ressentimentos.


Eu entendo que não é fácil se posicionar e retroceder em algumas decisões. É difícil principalmente procurar aqueles que nos magoaram. Peça ajuda. Há situações que não resolveremos sozinhos.


Essa também é uma outra dificuldade incrível – de conversar com outros para pedir ajuda porque isso nos torna vulneráveis. Quando abrimos nosso coração para colocar para fora nossos sentimentos, ficamos preocupados com o que os outros vão pensar de nós. É por isso que insisto: você terá que procurar pessoas maduras para ajudá-lo.


Não estou falando que deverá agir como bobo deixando que todos o façam de capacho, mas o quero dizer é que se todos os pequenos problemas pessoais que surgirem todo dia não forem tratados imediatamente, seu coração começará a sangrar e sangrar até que chegará o momento em que ninguém mais terá acesso a sua vida e infelizmente você ficará isolado no seu mundo.


Comece a enfrentar hoje mesmo esse gigante. Às vezes a melhor forma de resolver conflitos é abrir mão de paradoxos da vida adulta, e ter uma visão simplificada da realidade, assim como uma criança.


Beijos e sucessos. Nos encontramos por aí.

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