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  • Professor Lucio Reis

A frustração também educa nossos filhos.


Não tenho a intenção de reinventar a roda ou trazer uma nova visão ao tema, mas reforçar o aprendizado e trazer lembrança ao desatento. Mas quem nunca ouviu falar ou pensou sobre o assunto, fica aqui uma singela dica.


Não é estranho a ninguém a velocidade da transformação do mundo atual, principalmente se você tem mais de 30 anos, que cresceu no que parece ser outro mundo totalmente diferente deste. Talvez para os mais jovens isso não seja tão representativo em razão deles já crescerem ou nascerem em meio a essa transformação maluca, razão pela qual se adaptam rapidamente.


Ainda é comum ouvir alguém dizer: “Na minha época as coisas eram diferentes.” E de fato eram, principalmente antes do advento da internet.


O professor Milton Santos tratou muito bem dessa transformação voraz num conceito que deixou como herança que é a a noção de Meio técnico-científico-informacional, que trata da evolução dos processos de produção e reprodução do meio geográfico.


Percebo não só como educador, mas como pai de uma jovem de 22 e de uma adolescente de 14 anos que educar nossos filhos hoje é cada vez mais desafiador. São tantas perguntas que precisamos fazer e obter respostas rápidas enquanto caminhamos na Vida o que torna nossa jornada muito cansativa. Tantos “gurus” apontando caminhos diferentes, soluções enlatadas que na prática não fazem a menor diferença.


Mas como formar filhos com suas emoções saudáveis em todo esse contexto de transformação se muitas vezes nem nós pais estamos bem com as nossas?

Nesses momentos de grande inquietude olho para trás e revejo os caminhos que percorri, as correções recebidas, as lições aprendidas, os conselhos recebidos e principalmente os muitos “NÃOS” que não somente meus pais me deram, mas a própria vida. Percebo que as pequenas frustrações na infância oferecidas por meus pais pela correção ou pelas pelas poucas condições financeiras foram pavimentando em minha infância uma estrada de resiliência. As pequenas frustrações geradas em mim debaixo dos cuidados dos meus pais foram importantíssimas para poder suportar as frustrações da vida. Depois vieram as frustrações da adolescência na escola, no trabalho enquanto jovem e daí por diante.


Hoje percebo que as frustrações que me machucaram muito e ainda doem tiveram o poder de me tornar resiliente frente às demandas que vão surgindo. Paradoxalmente aquelas decepções que aparentemente me enfraqueceram e me deram um certo sentimento de perdedor, derrotado e fraco, causaram o efeito reverso hoje; me agigantaram. Quando passo por situações muito parecidas sinto que já sei a saída, ou quando não encontro na primeira, consigo ter serenidade para refletir ou pedir ajuda para alguém mais maduro e assim as coisas vão desenrolando. E é engraçado nossa capacidade de fazer conexões entre nossas experiências passadas e as que estamos passando no momento.


O que quero dizer com tudo isso? Simples, precisamos estar muito atentos à forma como estamos conduzindo a edução dos nossos amadinhos.


É natural que aqueles que são mais velhos não queiram que seus filhos passem pelo que eles passaram e por isso entregam tudo que os filhos pedem. E não falo somente de coisas, falo também dos relacionamentos.


Quantas vezes me apaixonei pelas garotinhas da escola levando um fora de todas. Doia muito, ficava na “fossa” como diziam na época. Ouvia músicas de amor e curtia aquele momento por três ou quatro dias no máximo. Depois me levantava como se nada tivesse acontecido e ia pronto para me apaixonar novamente por outra.


Hoje não. A carência afetiva é tão grande que muitos adolescentes dão cabo de suas vidas por não saberem lidar com isso. Não posso generalizar, mas grande parte dessas pessoas não souberam lidar com os “nãos” e com as pequenas frustrações já na infância. De acordo com relatório apresentado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2016, a cada quatro segundos, uma pessoa comete suicídio no mundo. Ainda segundo a OMS, o suicídio é a segunda principal causa de morte da população entre 15 e 29 anos.


Nossa pauta não é o suicídio em si porque há muitos outros fatores para se estudar como Impacto das redes e do universo digital, Falta de expectativa para o futuro, Conflitos relacionados à orientação sexual e muitos outros fatores, mas pode ter certeza que a frustração está no meio delas.


Os mais novos que não passaram tantas privações como nós, já crescem educados - acostumados - a só receber o sim e fatalmente estão educando seus filhos da mesma maneira. É a cultura do “SIM” indiscriminado. Infelizmente teremos uma próxima geração de excelentes técnicos, gigantes em suas áreas de atuação mas emocionalmente fracos. Pessoas que terão muita dificuldade de abrir portas emocionais por não saberem destrancar com a chave na porta.


Você pai que está educando seus filhos com receio de falar NÃO na hora que eles mais precisam de ouvir por medo de deixa-los chateadinhos e com raiva, não se preocupe com isso. Você é pai/mãe, você não é amiguinho. Nossos filhos precisam e necessitam de direção. De pessoas que apontem o caminho com ousadia, firmeza, impondo limites e frustrando muitas vezes suas ideias.


Você até pode ter condições de comprar tal coisa, mas às vezes é educativo segurar um pouco - claro que sempre dentro de um contexto que você saberá discernir - e creia, ele dará muito mais valor.


Incluo a isso o exercício da cidadania. Para cada algo novo que vão ganhar a ideia de doar um antigo pode parecer interessante. Muitos percebem que seus filhos não têm um coração doador, mas é de suma importância transmitir a eles o espírito solidário também.


Amigo leitor, pode parecer estranho, ma já ouvi algumas vezes dos seus filhos em sala de aula, que eles gostariam tanto de ouvir um não dos pais. De ter uma palavra de direção com mais firmeza (diferente de brutalidade). Dá para perceber o tamanho da responsabilidade?


Coloque regras em sua casa para os jogos eletrônicos. Frustre a ideia de que ele pode jogar o dia inteiro de que ele não precisa ter hora para dormir. Não deixe solto. Até hoje quando minhas meninas extrapolam um pouco eu já sinalizo. Lembre-se que regras colocadas cedo, tornam a vida mais leve e não são peso.


Livre-se dessa ideia maldita de que as regras são chatas porque assim seus filhos farão associação de que suas regras são chatas e pesadas. O que seria do trânsito sem elas? Já imaginou a bagunça?


O sim do pai precisa ser conquistado.

Essa expectativa é muito gostosa. O direito à chave da casa precisa ser colocada debaixo de regras e celebrada. Aliás, aqui vai um adendo. Tudo em casa, cada etapa vivida com nossos filhos precisa ser celebrada. São essas pequenas atitudes que vão formando pessoas saudáveis em suas emoções. Não precisamos de excessivas afirmações de “eu quero, eu posso, eu consigo”. Essa é uma enfermidade passada à sociedade pelos muitos coaches que se tem por aí. Eu posso querer, mas vai ser no tempo certo, do jeito certo e se isso de fato for certo para minha vida.


Meu amigo, lembre-se de que as pequenas frustrações podem doer no momento, mas serão remédios poderosos para um futuro saudável.


Um fraterno abraço em sua família.

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